segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Belém, uma doce lembrança do que já não existe mais

Sempre achei que ser paraense é parte do que tenho de melhor. Muito do que sou e do que gosto em mim tem impressões dessa terra.

Mas nas últimas vezes que estive em Belém volto angustiada por ver que ela está ficando cada vez mais distante do que o meu ufanismo saudoso me faz ter orgulho.

O caos e a desordem tomaram conta de cidade numa proporção assustadora. As pessoas não respeitam as leis de trânsito, os clientes, os passageiros dos coletivos.

Ao chegar do Marajó, dois taxistas foram pra disputa física dentro do Terminal Hidroviário, assustando turistas que ali estavam. O taxista que nos levou - que não era um dos brigões - nos fez pagar quase o dobro do que seria a corrida porque não ligou o taxímetro e só vimos na chegada, pois estávamos distraídos vendo a Belém histórica. Eu não pagaria, mas o Mário optou por fazê-lo para evitar confusão.

Um vendedor ambulante me cobrou duas vezes algo que paguei mesmo eu insistindo já ter pago e tendo feito olhando nos seus olhos. Tirei por menos, paguei duplamente pra seguir sem aborrecimento.
Fomos roubados numa festa porque "parecíamos de fora", disseram alguns especialistas no local.

Vimos minha mãe assustada e querendo passar o reveillon em casa por causa do trauma do assalto que sofreu na véspera.Várias vezes precisamos nos esquivar dos sacos de lixo nas calçadas, depositados pelos cidadãos que deveriam cuidar dessa cidade.

Dirigíamos apavorados com medo que um dos loucos que avançam sinal ou andam na contramão (em Ananindeua tem um monte) batesse no carro que um amigo generosamente nos emprestou.

Foram dias gostosos, cheio de amor, mas tensos, tendo que nos esquivar da irresponsabilidade e má fé o tempo todo. Férias não deveriam ser assim, né?

Os sabores, a cultura, as gargalhadas e o amor à família e aos amigos tendem a ficar cada vez mais distantes. Cada vez que venho, penso em demorar anos pra voltar. E, sim, isso me dói muito.

E não venha me dizer que todo lugar é assim. Todo lugar não é minha terra natal, todo lugar não é pra onde eu quero voltar em paz.

Em tempo: o Marajó continua perfeito. 

Um comentário:

Alan Souza disse...

Olha, você escreveu o que eu tinha vontade, Baronesa!

Estive em Belém no meio de janeiro, fiquei 12 dias lá. A cada vez que vou me aumenta a sensação de que a cidade involui. Me parece sempre que piorou um pouco, que tá mais suja, mais abandonada, o trânsito pior, a insegurança maior...

O trânsito já passou da coisa de louco há alguns anos. Engarrafa em qualquer lugar e a toda hora. Você evita de ir nos lugares porque não vai ter onde estacionar ou então vai levar uma era pra chegar lá. O povo para o carro no meio da rua e desce pra fazer o que tiver de fazer, mesmo que vá demorar uma hora. Liga o pisca e quem vier atrás que se dane. Os motoqueiros ficam fazendo roleta-russa, ignoram sinal vermelho. Não é aquele caso de "não vem carro, vou passar", é na roleta mesmo! Aliás, os motoqueiros ignoram também o capacete, que religiosamente TODOS tem, mas só usam pendurado no braço...

Andei muito pelo centro da cidade, e fiquei espantado com a decadência de vários prédios antigos, inclusive particulares. Naquela região do Pátio Belém, Tamandaré, praça Felipe Patroni, Tribunal de Justiça, andei muito por ali resolvendo algumas coisas, e fiquei impressionado com o cheiro de urina e fezes por todo lado.

Uma noite, depois de um dia estressante, eu queria sair de casa e ir num boteco da esquina tomar uma cerveja, pra espairecer e matar o calor. Não rolou: minha mãe, meu cunhado e minha irmã avisaram que não se pode mais andar à noite, em segurança, ali no Umarizal onde eu nasci e me criei, pertinho da Praça Brasil. Outra vez, fim de tarde e eu queria ir andando no supermercado, me aconselharam a ir de carro: trombadinhas e assaltantes fazem plantão toda tarde na rua D. Pedro, entre a praça Brasil e a feira de Santa Luzia. Assaltos são comuns lá, a PM não faz nada, não adianta reclamar - como de resto não faz nada na cidade inteira, a não ser quando um PM morre e aí a cidade vira campo de extermínio, aconteceu mais uma vez enquanto eu estava lá.

Cheguei à mesma conclusão que você: a Belém que eu tanto amo não existe mais. Até o povo mudou, o paraense gentil e que se esforçava pra atender bem a todos, não existe mais. Nas lojas, nos restaurantes e bares, nas ruas, vi e interagi com muita gente grosseira, mal-humorada. Belém não era assim há 11 anos, quando saí de lá.

Lembrei de um trecho de "Carta ao Tom": nossa famosa garota nem sabia/a que ponto a cidade turvaria/esse Rio de amor que se perdeu...