domingo, 25 de janeiro de 2015

Sou mãe e não, dona

Quando ela me disse, cerca de quatro meses atrás, que precisava viver essa experiência, senti como um soco no estômago.

Faltou o ar, faltaram palavras. Mas se ela teve maturidade pra perceber aquela realidade aos 11 anos (fez uma bela exposição de motivos), eu também deveria ter. E do alto de sua infância, Dalila estava ali me dando mais uma lição.

Conversei com a outra parte envolvida e, pra minha felicidade, a resposta foi positiva e a ideia muito bem recebida.


O tempo foi passando e fomos, então, amadurecendo aquele plano.

Em vários momentos, ela se mostrou titubeante. Apesar de empolgada com a novidade, dizia que não conseguiria, que talvez não resistisse. Mas, apesar de toda a dor que eu sentia, eu a encorajava.

Depois da primeira conversa sobre, eu tive certeza de que aquele passo era muito importante pra ela. Era muito importante pra eles. Era muito importante pra o mundo que eles hão de viver juntos e, principalmente, pra superar algumas frestas que ficaram abertas no decorrer de 8 anos de separação.

Eis que no domingo passado, enfim, chegou o dia daquele desejo se tornar real.
O choro desde a véspera, o medo, a angústia pela distância do colo que ela sempre teve me destruíam. Mas, paradoxalmente, também me encorajavam.

Confesso que de tudo a maior dor foi ver a minha pequena Tarsila, tão alheia a tudo, sofrer com algo que não pediu pra viver.

Já no aeroporto, eu achei que não conseguiria. Mas lembrei do pai que tanto me fez falta a vida toda. Lembrei do quanto até hoje eu carrego as marcas da ausência dessa referência. No que depender de mim, minhas filhas nunca hão de carregar as mesmas dores.

Nós, mulheres, gostamos de lembrar o quanto nos sacrificamos pelos filhos: carregamos durante meses na barriga, vivemos totalmente em função deles durante os primeiros meses de vida e abrimos mão de sonhos e planos por eles. Por tudo isso, muitas de nós tendemos a nos sentir proprietárias de nossas crias. É compreensível. Não pelo senso de posse, propriamente dito. Mas porque eles passam a ser parte de nós e, nessa condição, queremos protegê-los infinitamente.

Porém, é sempre importante lembrar que não os fizemos sozinhas. Ainda que muitos pais não tenham a participação devida na vida dos filhos, não podemos privar nossos pequenos do direito à convivência com eles, quando esses homens resolvem se abrir, enfim, para recebê-los.

Confiar, muitas vezes, é difícil! E é uma responsabilidade muito maior do que a de carregar na barriga e/ou sustentar sozinha a criança. E se der errado?

Mas e se der certo? (!!!!)

Sou mãe. Não teria o direito de privar meu maior tesouro de viver a grande experiência de ter um pai por perto.

De minha parte, resta-me suportar a dor da ausência temporária dela (vai ser por um ano); tornar esse período menos sofrido para a pequena irmã tão colada nela; e orar muito para que Deus dê àquele pai a sabedoria suficiente para aproveitar essa grande experiência, esse grande resgaste.

Ela foi sabendo que me tem integralmente mesmo que a milhares de quilômetros de distância; assim como eu sei que a tenho nas minhas melhores lembranças, na minha expectativa de retorno e na minha tranquilidade de que sempre dei e darei o meu melhor por ela.

Sou mãe.

 





2 comentários:

Adelino disse...

Um bonito relato! Razões e emoções em perfeita sintonia. Esse desprendimento também é uma forma de amor.

Jerusa disse...

Ai! Dá, na hora, um nó na garganta esse teu relato. Depois vem a admiração pela maturidade com que encaraste a situação e admiração também pela coragem da Dalila. Tenho certeza que será uma experiência muito valiosa para ela.
Boa sorte e que o restinho do ano passe bem rapidinho para estarem, as três, juntas novamente.