quinta-feira, 14 de abril de 2011

E aí, bora cuidar da cabecinha?

E o assunto dos últimos dias ainda é a chacina em Realengo, ocorrida há uma semana.
Inicialmente, discursos acalorados falavam em "falta de segurança nas escolas". Depois, o debate passou para a necessidade de desarmar a população. Nos dois quesitos, pedras nos políticos - No Brasil é mais fácil culpar políticos do que a sociedade se enxergar um pouco.
Acho que já é tardio por parte deste blog relembrar que por meio de um plebiscito 64% da população apta a votar em 2005 disse que não queria que fosse limitada a venda de armas no Brasil.

Bom, mas quanto mais a imprensa explora os aspectos do crime, mais me convenço de que o debate mais sério que precisa ser travado está na necessidade de cuidar da saúde mental das pessoas. Como o povo adora um voyerismo, explorar todas as nuances da chacina e descascar a vida do assassino tem sido o foco da cobertura jornalística. E quanto mais eu sei sobre o caso - e olha que eu tenho evitado bastante -, mais me convenço de que essas mortes todas poderiam ter sido evitadas se esse rapaz tivesse recebido a ajuda adequada.

Já passou da hora da sociedade parar de achar que fazer tratamento psiquiátrico é motivo de vergonha, é coisa de louco, no pior sentido da palavra. Basta analisar a quantidade de vidas que se vão diariamente por mentes doentes (patologicamente mesmo, sem tom pejorativo).

No caso específico do assassino de Realengo, a própria família do rapaz admite que ele "era estranho" e que chegou a fazer tratamento psquiátrico, mas logo abandonou. Ok, e porque ninguém apoiou o rapaz para que continuasse? Ainda mais por se tratar de um adolescente à época. Quantos são os casos de pacientes que abandonam seus tratamentos e, se não fosse a ajuda de amigos e parentes, não retornariam?

As pessoas têm que parar de ter vergonha de dizer "sim, eu faço análise", "estou tomando um remédio para controlar meu humor oscilante".

É claro que o caso do rapaz citado é bem mais grave. E exatamente por isso ele jamais deveria ser largado à própria sorte. A situação não é fácil? Eu não acho que é. Mas é preciso enfrentá-la!

A própria classe médica deveria avançar nessa discussão. O obstetra com quem faço pré-natal veio outro dia com a seguinte conversa "aproveite que você está sem tomar remédio esses meses e pare com isso". O tom era totalmente pejorativo e como se o fato de tomar meus remedinhos fizesse de mim uma pessoa pior. Não! Ao contrário! Me ajudam a ser melhor. Ansiosa como sou, sem eles, só eu sei o quanto sofro. Eu e o médico que me acompanha nessa questão.

Agora vejam! Um médico tratando a questão com preconceito.
E um paciente com diabetes, não precisa de sua insulina para viver bem? Qual a diferença?

Mudar isso cabe a cada um de nós. Você mesmo que está lendo este texto acha que precisa de ajuda profissional? Vá, meu filho! Enfrente os preconceitos. Ah, não é você? É sua mãe? Tente convencê-la da importância de viver bem.

Convivo de perto com alguém que não se percebe precisar de ajuda psquiátrica. Uma pessoa muito talentosa, genial e que não consegue se dar bem na vida por uma única razão: briga com todo mundo. Isso vai de colegas de trabalho a amigos de infância. Atualmente não consegue se relacionar bem nem mesmo com a família, parece que somente com a esposa. Todo mundo que o cerca percebe isso. Quando questionado sobre mais um rompimento, a culpa é sempre do outro. É como se todo mundo o perseguisse o tempo todo. E a cada briga, ele faz questão de jogar em cima da "vitima" palavras duras que possam mostrar alguma suposta superioridade. É triste de ver. Se eu já tentei ajudar? Claro! Mas ele sempre vem com ofensas gratuitas. Desisti.
E aí, ele vai virar um assassino em massa? Não. Creio que não. Mas está virando um assassino de si mesmo e mata um pouco as pessoas que o amam cada vez que briga com elas com seus surtos de superioridade e discursos de que só ele é feliz. Amo algumas das pessoas que ele maltrata e sofro por tabela.

Infelizmente, todo esse blá blá blá que estou dizendo só serve para quem tem dinheiro para gastar com tais tratamentos. Uma sessão com psicólogo pode custa, em Belém, de R$ 70,00 a R$ 150,00. Com psiquiatra, oscila entre R$ 100,00 e 300,00 cada sessão. Há casos de visitas semanais e quinzenais. Pode ser que haja profissionais mais caros e mais baratos, mas eu desconheço. A Unama tem um serviço gratuito para pessoas de baixa renda, mas não sei como funciona.

O que eu acho é que precisamos debater mais a questão e pressionar para que o poder público ponha a serviço da população Casas de Saúde Mental. Sem demagogias ou papo clichê, mas estamos, sim, vivendo numa sociedade doente!

3 comentários:

Yúdice Andrade disse...

Comungo da mesma opinião, Waleiska. E fiz terapia há anos!
Por sinal, devo voltar, porque nunca recebi alta.

Elza disse...

Muito oportuna a sua postagem.

Ana Maria Delgado disse...

É Waleiska, até que vc é uma das poucas pessoas que conheço que assume a necessidade da medicação pra ajustar os comandos da mente. Legal!
É o que sempre digo: procuramos médico pra tudo do dedo ao útero ou do dedo ao pênis, ou seja, procuramos curar todas as perebas... mas, cuidar da mente ... são tão poucos!!! aí, a falta de trato, cuidado... é um pé pra loucura!!!