terça-feira, 16 de setembro de 2008

Divórcio

Sempre fui precoce.
Eu tinha 8 anos quando surgiram aqueles carocinhos no tórax que doíam quando alguém me empurrava nas brincadeiras.
Com 10 anos eu já andava sozinha de ônibus, levando meus irmãos de 9 e 7 anos para a escola.
Aos 11 anos, usei meu primeiro absorvente.
Aos 12 anos, era diretora da juventude da Associação de Moradores do conjunto residencial onde eu morava.
Aos 13, fiz minha primeira endoscopia que comprovou a gastrite.
Aos 14, cirurgia de apendicite.
Aos 17 anos, cirurgia para tirar um nódulo do seio.
Casei aos 22. Com a mesma idade fui mãe.
Aos 27, o oftalmologista disse que eu tinha sinais de uma catarata.
Precocidade faz parte da minha vida. Acostumei. Não me assusto mais.
Mas tenho que confessar que hoje foi um dia que isso mexeu comigo.
Sou uma mulher divorciada.
Forte, né!
Isso me parece coisa de quarentona*.
- Qual seu estado civil?
- Divorciada.
Que horror!

O mais estranho é que por mais que o casamento não exista mais na prática há três anos e EU tenha movido todos os pauzinhos para esse divórcio acontecer, foi muito estranho pegar aquela averbação.

Quando eu casei, seis anos atrás, tudo parecia tão eterno. Era tão óbvio que nunca íamos nos separar. Era tão óbvio que aquele amor, aquela paixão nunca ia ter fim.
E quando a Dalila nasceu? Gente, nem sabia como podia caber tanta felicidade em uma única casa, tantos planos, tantos sonhos, tantas certezas de que a vida seria longa e cheia de momentos fantásticos.

No Tribunal hoje a cena e o pedido de pressa ao juiz se repetiu:
- Por favor, veja o documento que garante o meu divórcio ainda hoje. Tenho pressa nisso, para dar entrada em um financiamento, sem a renda de “casada”.

Anos atrás, o pedido também foi apressado.
- Por favor, não marcamos o casamento, mas tente nos casar ainda hoje. Já moramos juntos há tempos e eu tô grávida, preciso constar como dependente dele no plano de saúde em tempo hábil para a cobertura do parto.

Juízes são sensíveis a causas familiares nobres. A separação foi rápida tal qual o casamento. No mesmo dia, saí do cartório com o documento nas mãos. Nos dois casos, sorrindo. A conotação e a expectativa mudaram, mas a o alívio daquele papel nas mãos era exatamente o mesmo.

Queria poder comemorar. É, tô livre. Sonho tanto em casar novamente. Posso fazer isso agora. Amanhã, se quiser. Mas é estranho. Como tantos sonhos e certezas acabaram tão rapidamente? Nunca vamos descobrir.

Só espero realmente que dá próxima vez que eu for atrás desse bendito papel, a história seja bem diferente...

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*Antes que as quarentonas se ofendam, digo que meu susto é porque não tenho nem 30. Não quero pular fases.

2 comentários:

Socorro disse...

Ahhhhhhhhhhhhhh
Entendo perfeitamente seu sentimento.
EU que casei aos 18 e com a mesma idade fui mãe.
Consegui me DIVORCIAR legalmente aos 37, após 13 anos de separada e com uma urgência nada parecida, não queria que meu diploma de Bacharel saísse com nome de casada e estava prestes a me formar. hahahaha´.
Passei um bom tempo feliz da vida respondendo sobre o estado civil: DIVORCIADA. hahahaha

Anônimo disse...

Com relação ao 'carocinho' crescendo no tórax, rs, eu fui testemunha. Nunca esqueci de um fato:

Estávamos lá na Vila, na Conselheiro (no tempo em que o tráfego, lá pra´quelas bandas, era ao contrário), correndo, pulando e gritando como sempre.

Dona Wanda chama a Waleiska para tomar banho no quintal acimentado. Coloca os baldes pra encher e manda ela tirar a blusa, ficar só de calcinha (ela adorava ficar só de calcinha!). Eu, a Paulinha, fiquei olhando pra ela... Vi aqueles dois carocinhos e não me contive: dei um empurrão. Cada mão foi certinho em um carocinho...

Dai, ela (Waleiska)os cobriu com as mãos. Dona Wanda me repreendeu:

- Ô Paulinha, não faça isso!Waleiska já está mocinha...

E eu fiquei sem entender nada, como sempre...

**Aposto que não lembras disso, nééééééé !? **

=]