quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Sobre o tal inchaço da máquina pública

Entrevista agora há pouco na CBN sobre o inchaço da maquina pública entre 1992 e 2014 revelou alguns números:
- A quantidade de servidores é praticamente a mesma há mais de 20 anos;

- O custo cai constantemente frente a arrecadação;
- A área que mais cresceu (com folga) em número de pessoas e volume de recursos foi educação;
- Polícia Federal e Receita Federal estão entre os crescimentos mais expressivos.
- A maioria dos cargos de confiança é ocupada por servidores concursados sem partido.
- A qualificação profissional deu um salto, especialmente no numero de doutores, que saiu de 0,8% para mais de 12%.

De fato o inchaço precisa ser enfrentado.

O alerta é do jornalista brasiliense Lincoln Macário. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Não somos inimigas. Não devemos

Não tenho inimigAs.
Nāo mando recado pra recaldA alguma.
Não provoco qualquer invejosA.
Nenhuma mulher pode ser vista como rival.

Nosso único inimigo é o machismo de cada dia, que, por sinal, insiste em querer nos convencer de que devemos duelar entre nós.

Libertemo-nos disso, meninas!


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Migração não pode ser caso de polícia, diz pesquisadora

A coordenadora do Comitê Migrações e Deslocamentos da ABA e Ph.D em Antropologia pela Columbia University ampliou a problemática dos deslocamentos humanos

Jornal GGN - "Não se trata de indagar somente 'quem tem direitos a direitos', mas também 'quem tem direitos a ser humano'", resumiu a pesquisadora Bela Feldman-Bianco, Ph.D em Antropologia pela Columbia University e diretora-associada do Centro de Estudos de Migrações Internacionais (CEMI) na Unicamp, sobre as políticas públicas e o cenário de isolamento, seja político, social, econômico ou cultural, dos imigrantes pelo mundo. O panorama foi realizado em debate na Cátedra Unesco Memorial da América Latina, nesta quarta-feira (02).

E assim como uma estudiosa do tema, Feldman-Bianco analisa que uma das problemáticas que envolvem o fenômeno é a tendência positivista de reificar Estado-nação, ou seja, a influência da Academia de segmentar a origem dos indivíduos, como se as dificuldades partissem somente disso e não abrangessem os demais contextos locais. Da mesma forma, o negativo costume de restringir significados a denominações como "refugiados", "imigrantes", "expulsão", "desocupação", "desterros"... - sendo todos estes, explica ela, diversidades de nomes para o deslocamento de pessoas.

Sem a pretensão de confinar os campos de estudos, a pesquisadora, que é também coordenadora do Comitê Migrações e Deslocamentos da Associação Brasileira de Antropologia, lembrou que essa setorialização é levada para as políticas públicas. Não à toa, os haitianos, pelo crescente impacto de imigrantes do país caribenho no Brasil, integram hoje o Conselho Nacional da Imigração do Ministério do Trabalho, mas os demais refugiados são tratados pelo governo por uma pasta do Ministério da Justiça, ao lado de temas como a Segurança Pública.

"Os haitianos são refugiados ambientais. Isso traz à tona também a questão de que o Estatuto do Estrangeiro no Brasil é da época da ditadura. É um Estatuto todo baseado em Segurança Nacional. E a política que está sendo realizada brasileira são, apesar do Estatuto, ações pontuais, muitas delas feitas, inclusive, no contexto do Conselho Nacional da Imigração do MT", disse a especialista.

Essa "peculiaridade" de tratamento, ainda que com consequências positivas aos haitianos que chegam ao país, repercute o outro extremo do processo. "Os haitianos, pela questão ambiental, não poderiam ser considerados refugiados de acordo com o nosso Estatuto dos Refugiados, então se inventou um [Estatuto] customizado. Se há uma discriminação positiva em relação a eles, por outro lado, reflete como no Brasil faltam políticas públicas para os refugiados", afirmou.

Bela Feldman exemplificou que a precariedade do atual tratamento com deslocados parte da própria legislação brasileira. "Havia três anteprojetos de lei sobre imigrantes. Um conhecido como 'projeto de Lula', de 2009, outro do senador Aloysio Nunes, de 2013, e o mais recente de uma comissão especialista no âmbito da Comissão Nacional de Justiça. O projeto de lei de Aloysio Nunes foi discutido no Senado, aprovado, mas já incorporou os dois outros projetos. O PL muda o paradigma, mais de encontro com a Constituição brasileira em termos de sujeitos de direitos? Sim. Mas, por outro lado, na análise dessa lei é possível ver que dois terços do conteúdo se referem à criminalização", explicou.

"Precisamos nos organizar para tirar essa criminalização e o problema realmente é a questão migratória continuar na Polícia Federal. É um problema terrível, porque migração não é caso de polícia, não pode ser! Refúgios não tem nada a ver com a polícia. Tráfico de pessoas sim, mas não a migração", indagou, completando que, na sua longa especialização na área, foi necessário estudar violência para entender a própria temática da imigração.

Por fim, a especialista questionou se o Brasil é mesmo receptivo com o estrangeiro, como a própria imagem do país busca disseminar.

"O Brasil, até se fala, está de braços abertos para imigração. Mas eles necessitam de políticas públicas. Os haitianos se tornaram emblemáticos do que está acontecendo: chegam, não tem moradia, não tem nada. Esse caso mostra, e não são só haitianos que vêm do Acre para São Paulo ou para o Sul, vários senegaleses também vêm. A única exceção aqui em São Paulo é a criação de uma Coordenação de Políticas de Imigrantes", afirmou, criticando a falta de outras políticas de Estado.

Nesse hiato de iniciativas estatais, a pesquisadora relembrou a importância de associações, entidades religiosas e mesmo grupos de estrangeiros que vem cumprindo o papel de suprir o vazio das medidas públicas. "Quem acolhe imigrantes até agora, e isso desde o passado, são as igrejas, além das católicas, as igrejas evangélicas, as muçulmanas com a chegada dos sírios, ou redes sociais que se formam entre os próprios imigrantes e refugiados. Porque não existe política pública, e agora que se está começando".

É nesse sentido que Feldman analisa a necessidade de debater o tema do refúgio, da imigração e do deslocamento de pessoas. Assim como objetos de pesquisas acadêmicas, de necessárias políticas de enfrentamento ao preconceito, à xenofobia e às resistências culturais, a pesquisadora enfatiza que os imigrantes não são passivos, mas "protagonistas ativos das suas lutas".

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A demissão de jornalistas e o choque de realidade

Por Marcelo Migliaccio*


A demissão é um choque de realidade. Você passa centenas, milhares de manhãs, tardes, noites e até madrugadas enfurnado numa redação tensa e claustrofóbica. Perde os melhores momentos da infância de seus filhos equilibrando-se sobre um tapete que seus amigos virtuais puxam dissimuladamente, dando-lhe tapinhas nas costas toda segunda-feira e perguntando como foi o fim de semana.

Não importava pra você se o jornal em que você trabalhava apoiou dois golpes de estado e só desistiu na última hora de liderar o terceiro porque ia pegar muito mal. Sentindo-se parte daquela família, você relativizava toda a sacanagem. O que queria mesmo era poder entrar num shopping sábado à tarde e posar de classe dominante. Sim, você era o rei do supermercado, carteira cheia, empáfia, carrinho abarrotado. Venci, você pensava, com cuidado para o seu orgulho besta não dar na vista. 

Parecia até que era dono de alguma coisa além da sua força de trabalho. Sim, você confundiu tudo: uma coisa é o patrão, o dono da parada, a outra é você, o empregado, peça descartável como aquele faxineiro que coloca papel higiênico nos banheiros da redação. A culpa não é sua, qualquer um ficaria inebriado. Sei, seus textos são ótimos, nesses anos você fez isso e aquilo, entrevistou grandes astros, ministros, até presidentes. Mas isso tudo e nada para o manda-chuva é a mesma coisa. Seu belo currículo não resistiu à tesoura de um tecnocrata e Prêmio Esso não tem valor em nenhuma padaria da cidade.

Você ontem caiu das nuvens (bem, é melhor do que cair do segundo andar). Pelos seus anos de dedicação e suor, recebeu um rotundo pontapé no traseiro. Agora, ninguém vai mais convidar o "Fulano do Jornal Tal" para um almoço grátis. Porque o convidado na verdade era o Jornal Tal e não o Fulano. Entradas para teatro e cinema? Esqueça. Daqui em diante, ou você paga o ingresso ou fica na calçada da infâmia.

Não, amigo, você não é classe dominante, mesmo que tenha defendido os ideais dos seus patrões com unhas e dentes e a maior convicção do mundo. Suas ideias neoliberais talvez não façam mais sentido a partir de hoje. Será preciso encarar os vizinhos sem aquele poderoso crachá no peito. É hora de engolir o orgulho. Tem um gosto meio amargo, mas você consegue.

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Marcelo Migliaccio é jornalista com passagens nos principais jornais do país

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A história estuprada do Brasil

Por Valdson Almeida

Corre mata adentro, cansada, ofegante, vencida.
É o bandeirante desbravador estuprando a índia. E é ela a selvagem, claro!

Tapa a boca, escraviza a alma. Chora, vendida.
É o senhor da casa grande, proprietário de carne, estuprando a negra na senzala. E é ela a escória, claro!

É o militar patriota estuprando a comunista subversiva nos porões da ditadura. E é ela a ameaça ao país, claro!

É o policial vestido de hipocrisia que atende a mulher violentada agora há pouco, perguntando que roupa ela usava na hora do ocorrido. E é ela que se veste errado, claro!

É o pai de família que faz sexo com a esposa indisposta. Mas isso não é estupro, é só sexo sem consentimento mútuo, claro!

É o macho alfa que estupra corretivamente a lésbica “mal comida”. E é ela a doente que precisa de cura, claro!

É o aluno de medicina, estudante da “melhor universidade da América latina”, que estupra a caloura bêbada. E é a denúncia dela que mancha o nome da Universidade, claro!

É o político defensor dos “bons costumes” que só não estupra a deputada porque ela ‘não merece’. Ufa, pelo menos alguém sensato nessa história violentada do Brasil.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Não aos assobios e discriminações

Cada vez mais mulheres vêm buscando combater discursos que perpetuam rótulos
O assobio desagradável no meio da rua. O ser julgada pelo comprimento da saia. A ditadura do ser linda e magra. A obrigação de conhecer as dicas da revista para enlouquecer o homem na cama. São, aparentemente, meras questões comportamentais e que, de tão enraizadas na sociedade, não doem ou incomodam. Se engana quem pensa assim. Cada vez mais mulheres vêm buscando combater discursos que perpetuam rótulos, machismo e preconceito, alguns tão sutis que sequer são percebidos como tais por muitas vítimas. Há menos de um mês, cartazes com a frase "Deixa Ela em Paz" passaram a ser vistos em áreas de grande circulação do Recife, de Caruaru e do Rio de Janeiro. É o nome de uma campanha independente que vem angariando milhares de seguidores por meio das redes sociais.

As integrantes, que não dizem quantas são e não se identificam para não quebrar o espírito de coletividade, afirmam que a ideia surgiu a partir de experiências que, mesmo em pleno século 21, seguem reproduzidas em situações tão antigas quanto a condenação de Eva pelo pecado original. "A frase que intitula a campanha abrange a discriminação no ambiente de trabalho, relações abusivas, assédio nas ruas, moralismo. É preciso despertar para as opressões que as mulheres sofrem, dando voz a elas, para que possamos entender que estamos juntas, que podemos nos ajudar e tornarmo-nos mais autônomas, independentes, livres", conta uma das ativistas. "São situações comuns. Talvez, por isso, bastante gente se identifique com a ideia. Mas, ao mesmo tempo, o machismo se manifesta de formas sutis", completa.


Na capital pernambucana, um dos pontos escolhidos para a colocação de lambe-lambes com a mensagem de efeito foi a rua da Aurora, na área central da Cidade. Há exemplares em postes e muros perto da Assembleia Legislativa (Alepe) e do Monumento Tortura Nunca Mais. A rua da Assembleia, no Bairro do Recife, é outro local onde a iniciativa pode ser vista. Com um pouco de cola e um rolo de pintar, as próprias integrantes afixam as mensagens, geralmente em estruturas que já foram alvo de outras intervenções urbanas, como o grafite. Elas sabem que podem ver as peças arrancadas pela ação natural ou de fiscais, mas contam com a colaboração para espalhar a campanha pelo País. "Quanto mais gente puder combater o discurso do machismo, melhor", diz a mobilizadora.


AGRESSÕES - Rótulos podem parecer inofensivos, mas formam a escada que leva a justificativas de violências conduzidas às últimas consequências. Começa na propagação de que as jeitosas meninas devem arrumar a bagunça dos garotos desajeitados. De que aprender a cozinhar e a varrer a casa é serviço que compete somente ao sexo feminino. De que, quando disponíveis no mercado de trabalho, o homem é chamado de desempregado, e a mulher, de dona de casa. Nos casos mais graves, terminam em agressões e mortes simplesmente porque alguém se acha tão dono de sua ex-companheira que se vê no direito de não deixá-la retomar sua vida.


CULPA - "A mulher já nasce culpada. Ela tem que se preocupar até se a roupa que está vestindo vai ofender alguém. Se está muito feminina, se está muito masculinizada", comentou a coordenadora do curso de Direito Penal da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Marília Montenegro, durante evento, na última quinta-feira, acerca da rede de atendimento à mulher recifense.


Na ocasião, foi divulgada uma pesquisa baseada em 168 processos criminais sentenciados entre junho de 2013 e maio de 2014 na 1ª Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. Ao todo, 34,5% dos casos - exceto homicídios - partiram de homens que haviam tido um relacionamento amoroso com as vítimas.


Elas eram, quase sempre, empregadas domésticas ou donas de casa. Eles, desempregados ou vendedores. Ambas as partes, com idades de 31 a 40 anos. A maioria das ocorrências foi relativa a ameaças e lesões corporais leves. "Isso mostra a necessidade efetiva de conscientização dessas pessoas. Temos buscado promover ações, inclusive nas escolas, para combater esses discursos desde cedo, acreditando na cidadania e na garantia dos mecanismos de proteção", destacou a secretária da Mulher do Recife, Elizabete Godinho.

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Matéria do jornal FOLHA DE PERNAMBUCO ON-LINE - PE, publicada nesta segunda-feira, 31.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Como é bom ser do PSDB

Pelo professor e advogado público Alan Souza

 
Entremeado por algumas notinhas sociais, a colunista da Folha Mônica Bergamo informa que o "cartel" da Alstom e da Siemens no metrô de SP vai morrer quieto. A Alstom vai fechar um acordo de leniência, pagar 1 bilhão (é o valor do desvio só da Alstom, sem contar a Siemens. E isso só no metrô de SP, que infinitamente menor que a Petrobrás!), não vai ter nenhum processo, ninguém foi preso, niguém vai responder por nenhum crime, e nem administrativamente.
(http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2015/08/1674406-alstom-negocia-acordo-para-devolver-dinheiro-ao-metro.shtml)
 
Corta pra Petrobrás: um mundo de gente presa, só vai solto se fechar acordo de delação, querem o impeachment da Dilma e o Ministério Público (que em SP avalizou o acordo de leniência) tentou impedir o Governo Federal de fechar qualquer acordo de leniência, indo contra uma legislação que ele mesmo ajudou a criar.
 
A melhor coisa do mundo é ser Tucano! Pode roubar à vontade e depois dizer que é "vítima do cartel", construir aeroporto com dinheiro público na fazenda da família, ser delatado na Lava-Jato*, ter conta-fantasma no exterior**, que não acontece nada, e o sujeito ainda fica por aí pagando de guardião da moralidade e com a mídia toda a seu favor. A mídia mundial noticia que Aécio foi acusado de receber propina (http://bit.ly/1LDaeQI), e a brasileira se cala...
 
*O doleiro Alberto Youssef disse em depoimento na Lava-Jato que Aécio Neves recebia propina de Furnas. Especificou o valor (150 mil dólares por mês), disse a quem era pago (à onipresente Andrea Neves, irmã do Aécio) e qual a empresa que efetuava o pagamento da propina (a Bauruense). Janot deixou de investigar Aécio alegando que se tratava de "um outro episódio", que não da Petrobrás. É como se um delegado estivesse investigando roubo de carga e numa batida encontrasse tráfico de drogas, e deixasse de investigar o tráfico alegando que "é outro episódio". Mas Eletronuclear, Ministério do Planejamento e tudo mais que apareceu na Lava-Jato e não era Petrobrás - eram também "outros episódios" -, tudo foi devidamente investigado. Menos Furnas, pra não incomodar o Aécio...
 
**E pra completar, desde 2010 está parado nas gavetas do seu Janot um inquérito do MPF do Rio de Janeiro, sobre uma conta fantasma de Aécio Neves no Liechenstein, país-paraíso fiscal europeu.
 
Como é bom ser Tucano!


segunda-feira, 13 de julho de 2015

O que te faz ter medo da morte?

As pessoas, comumente, têm medo da morte. E tu, tens?
O que te faz ter medo dela? Já paraste pra pensar porque tens medo de morrer?

Em 2008, perdi subitamente uma das mais importantes e queridas amigas que já tive. Um fulminante ataque cardíaco a levou aos 28 anos de idade. Ela deixou pra todos nós o legado da amizade leal, fiel, a alegria constante e a disposição em ajudar as pessoas. Ana Amélia será sempre lembrada por tudo isso. E quando penso nela, eu reflito sobre a razão ou não de ter esse medo.

No último sábado, a partida de um jovem jornalista paraense, com uma complicação hepática, veio martelar de novo essa questão na minha cabeça: por que eu teria medo de desencarnar?

E a resposta que me vem imediatamente é só uma: separar as minhas filhas.

Choro só de imaginar que a cumplicidade delas pode acabar, que elas sofreriam demais pela distância.  Elas têm país completamente diferentes, e se eles não se entenderem?

Dalila é forte, cheia de personalidade, mas não abre mão do denguinhos da caçula.
Tarsila é altamente apegada à irmã e chora de saudade sempre que fica longe da mais velha. A Dalila chega a reclamar muitas vezes "Ela parece que quer entrar em mim".

Vê-las unidas, juntinhas, protegendo-se uma a outra, é o maior presente que Deus me reservou nesta vida. Minha partida da morada terrestre me angustia demais sobretudo por isso.

De resto, não temo muita coisa.

Acho que aproveitei muito das chances que tive de ser feliz. Amei e amo muito, sorri demais, fiz pessoas felizes. .

Apesar disso, acho que do outro lado eu lamentaria bastante o fato de nunca ter me reconciliado com uma das pessoas mais importantes da minha vida, a quem tenho certeza que devo demais de outras encarnações. Gostaria muito de ter chance de ainda nesta vida ficar bem com ele. E o "bem" não é falar e ser educado. É sentir que ele não tem qualquer ressentimento, da mesma forma que não tenho.

Lamentaria também o fato de nunca ter tido disciplina suficiente pra colocar em prática meu projeto de evangelizar em presídios e ajudar garotos infratores.

De resto, não tenho apego à esta carne.

Por sinal, registro aqui que quero a doação geral de tudo que for possível. Inclusive, de meus poucos bens materiais. Ajudem o máximo de gente possível.

Ah, e não apaguem meus perfis nas redes socais. É... A eles confesso que sou bem apegada.

E, por último, sigo acreditando no mesmo mundo diferente de quando eu tinha 12 anos. Minhas esperanças nunca envelheceram e é esse o legado que gostaria de deixar: ser lembrada por não ter medo de fazer diferente; inspirar pessoas a não temer as mudanças e as possibilidades de fazer o outro sorrir.

E tu, do que gostarias?


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Somos todos Maju!

A primeira vez que vi a Maria Julia Coutinho foi em 2002, quando fiz uma espécie de "estágio" de duas semanas na Fundação Padre Anchieta - TV Cultura de SP. Ela era uma promissora estagiária da produção e usava um cabelo trançado. Sempre foi chamada pelos colegas de Maju.

Apesar de ter acabado de me formar, eu já tinha a experiência de dois anos como repórter na TV Cultura do Pará (é... comecei a trabalhar cedo). Lembro bem dela pegando no meu cabelo cacheado que estava solto e dizendo "Seu cabelo deve ficar lindo no vídeo". E eu respondi que eu não poderia usá-lo solto na TV Cultura do Pará porque o diretor da TV não permitia. Ela respondeu "E tem que esconder quem você é?"

Aquilo me marcou e provavelmente ela não tenha noção disso.

Anos depois, quando a vi no SPTV como repórter, lembrei do nosso curto diálogo e do quanto aquilo representava. Não preciso nem dizer, então, quando ela foi para o JN...

Vê-la sofrer um ataque tão escroto, pequeno, baixo e criminoso, feito por racistas na página do Jornal Nacional, é de causar muita revolta. Dói em mim e em qualquer pessoa preta, branca ou amarela que tenha consciência de que "não podemos esconder quem somos" para sermos bem sucedidos.

És linda e competente, Maria Julia!
‪#‎SomosTodosMajuCoutinho‬

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Justiça ou vingança?

Artigo da psicanalista Maria Rita Kehl
Sou obrigada a concordar com Friedrich Nietzsche: na origem da demanda por justiça está o desejo de vingança. Nem por isso as duas coisas se equivalem. O que distingue civilização de barbárie é o empenho em produzir dispositivos que separem um de outro. Essa é uma das questões que devemos responder a cada vez que nos indignamos com as consequências da tradicional violência social em nosso país.
Escrevo "tradicional" sem ironia. O Brasil foi o último país livre no Ocidente a abolir a prática bárbara do trabalho escravo. Durante três séculos, a elite brasileira capturou, traficou, explorou e torturou africanos e seus descendentes sem causar muito escândalo.
Joaquim Nabuco percebeu que a exploração do trabalho escravo perverteria a sociedade brasileira –a começar pela própria elite escravocrata. Ele tinha razão.
Ainda vivemos sérias consequências desse crime prolongado que só terminou porque se tornou economicamente inviável. Assim como pagamos o preço, em violência social disseminada, pelas duas ditaduras –a de Vargas e a militar (1964 e 1985)– que se extinguiram sem que os crimes de lesa-humanidade praticados por agentes de Estado contra civis capturados e indefesos fossem apurados, julgados, punidos.
Hoje, três décadas depois de nossa tímida anistia "ampla, geral e irrestrita", temos uma polícia ainda militarizada, que comete mais crimes contra cidadãos rendidos e desarmados do que o fez durante a ditadura militar.
Por que escrevo sobre esse passado supostamente distante ao me incluir no debate sobre a redução da maioridade penal? Porque a meu ver, os argumentos em defesa do encarceramento de crianças no mesmo regime dos adultos advém dessa mesma triste "tradição" de violência social.
É muito evidente que os que conduzem a defesa da mudança na legislação estão pensando em colocar na cadeia, sob a influência e a ameaça de bandidos adultos já muito bem formados na escola do crime, somente os "filhos dos outros".
Quem acredita que o filho de um deputado, evangélico ou não, homofóbico ou não, será julgado e encarcerado aos 16 anos por ter queimado um índio adormecido, espancado prostitutas ou fugido depois de atropelar e matar um ciclista?
Sabemos, sem mencioná-lo publicamente, que essa alteração na lei visa apenas os filhos dos "outros". Estes outros são os mesmos, há 500 anos. Os expulsos da terra e "incluídos" nas favelas. Os submetidos a trabalhos forçados.
São os encarcerados que furtaram para matar a fome e esperam anos sem julgamento, expostos à violência de criminosos periculosos. São os militantes desaparecidos durante a ditadura militar de 1964-85, que a Comissão da Verdade não conseguiu localizar porque os agentes da repressão se recusaram a revelar seu paradeiro.
Este é o Brasil que queremos tornar menos violento sem mexer em nada além de reduzir a idade em que as crianças devem ser encarceradas junto de criminosos adultos. Alguém acredita que a medida há de amenizar a violência de que somos (todos, sem exceção) vítimas?
As crianças arregimentadas pelo crime são evidências de nosso fracasso em cuidar, educar, alimentar e oferecer futuro a um grande número de brasileiros. Esconder nossa vergonha atrás das grades não vai resolver o problema.
Vamos vencer nosso conformismo, nossa baixa estima, nossa vontade de apostar no pior –em uma frase, vamos curar nossa depressão social. Inventemos medidas socioeducativas que funcionem: sabemos que os presídios são escolas de bandidos. Vamos criar dispositivos que criem cidadãos, mesmo entre os miseráveis –aqueles de quem não se espera nada.
MARIA RITA KEHL, 63, psicanalista, foi integrante da Comissão Nacional da Verdade. É autora de "O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões" (Boitempo) e de "Processos Primários" (Estação Liberdade)

terça-feira, 30 de junho de 2015

Carta para Malafaia

Caro Malafaia,
Não se "fala mal" de um padre por se padre, mas quando ele é incoerente (ser pedófilo, por exemplo);
Não se "fala mal" de um pastor por ser pastor, mas quando ele é hipócrita (caça-niqueis, por exemplo);
Não se "fala mal" de político por ser político, mas quando ele é antiético (corrupto, por exemplo);
Não se "fala mal" de presidente por ser presidente, mas quando ele é inapto (incompetência, por exemplo);
Você quer ter o direito de "falar mal" de homossexuais por serem homossexuais?
No passado se tolerava muito mais "falar mal" do negro por ser negro, "falar mal" do judeu, por ser judeu, "falar mal" do diferente, por ser diferente. Acho que está claro para onde a história caminha e onde ficarão aqueles que tentaram impedir seu progresso.
Mandarei notícias da nova era para a era de trevas a que você se prende.

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O texto acima foi publicado pelo jornalista brasiliense Lincoln Macária em sua página no Facebook.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

E ainda há quem queira piorar as coisas...

Brasil tem quarta maior população carcerária do mundo

A notícia de que o Brasil aumentou o ritmo de encarceramento entre 2008 e 2014, conforme o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), ocupa os noticiários nacionais desde ontem.
Os dados foram divulgados nesta terça-feira pelo Ministério da Justiça.

A taxa de aprisionamento subiu 33% no Brasil, que tem a quarta maior população prisional do mundo - 607.731 pessoas estavam presas em junho de 2014. O País é superado apenas por Estados Unidos, China e Rússia. Em termos proporcionais, o Brasil tem 300 presos para cada 100 mil habitantes e fica atrás somente de Estados Unidos, Rússia e Tailândia.

Se somar aos presos em regime domiciliar, esses números chegam a 714 mil, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, divulgados em meados de 2014, colocando o Brasil no ranking da terceira maior população presa do planeta.

Deparar-se com dados assim só deixa ainda mais claro que "somente" prisão não resolve a violência e, portanto, colocar jovens abaixo dos 18 anos nas cadeias só vai piorar o problema.

É preciso ressocializar! 

#DigaNãoÀRedução
#ReduçãoNão

Foto: Rodrigo de Oliveira / Agência CNJ de Notícias





segunda-feira, 22 de junho de 2015

#Leiska35anos

Se alguém me perguntasse qual é o meu maior patrimônio nesta vida, eu responderia: as pessoas que colecionei.

Todas as minhas melhores recordações estão ancoradas no papel importantíssimo que muitas pessoas tiveram na minha vida. Sem elas, eu não seria absolutamente nada.

Esse sorrisão tão fácil não existe à toa.
É resultado de tudo que vocês me deram e seguem me dando: lições, amor, colo, broncas, projetos incríveis, chance de ajudar o próximo, perdão, estímulo, ouvido, lágrimas de emoção.
Caramba... tudo!

E não vou nominar pessoas porque nesse patrimônio cabem centenas, milhares!  
Os amigos de escola e faculdade, que muito me ensinaram; os colegas dos festivais folclóricos, que tanto auxiliaram na minha formação; os companheiros de militância, desde o movimento estudantil, que ajudaram na minha formação cidadã; os romances que vivi, cheios de trocas incríveis; os chefes que tive na vida, que sempre exigiram de mim e me deram a chance de crescer; os amigos que fiz em todos os trabalhos que tive; a família me estimulou a lutar pelo melhor; os amigos que já me ofereceram hospedagem em várias situações; as filhas que me dão equilíbrio na vida; todos aqueles que me deram a oportunidade de ajudá-los; e outras tantas pessoas que vêm me ajudando no decorrer da vida. Muitas, muitas!

Obrigada por fazerem de mim o que eu sou. Sim, cheiona de defeitos - ansiosa, impetuosa, falante, mandona etc - mas muito disposta a aprender cada dia mais, a amar e a perdoar. Não por acaso estou comemorando esses 35 anos há uns 10 dias... Tenho muitos motivos pra isso.

Inicio mais um ciclo de sete anos cheia de garra pra enfrentar os novos desafios e me fortaleço na fé que tenho em Deus e na certeza de que tenho vocês!

#Leiska35anos 



sábado, 20 de junho de 2015

Expectativas...

Já descobri que um dos segredos da felicidade é não criar expectativas.
É se permitir deixar ser surpreendido.
É se proteger de decepções.
Simples, né?
Na teoria, sim! Mas na prática é possível?
Como não se permitir envolver com algo que te faz bem? E sonhar que amanhã será melhor que hoje? E querer que a felicidade seja infinita?

Quem descobrir, me avisa!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Não defendemos impunidade

Há uma diferença abissal entre inocentar quem cometeu um crime - seja ele de qual idade for - e fazer uma análise crítica da cobertura tendenciosa da imprensa, quando se trata de delitos cometidos por menores de 18 anos.

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Vale sempre lembrar o que a imprensa não faz: crimes hediondos cometidos por menores representam 1,2% do total desse tipo de crime no país. A questão é que quando um crime hediondo é cometido por um adolescente o apelo midiático é muito maior e aí, vira essa comoção toda que estamos vendo.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Maltrate uma criança e ela devolverá isso ao mundo

Uma criança que tem furtados carinho, educação e proteção vê o perigo em sua vida e põe em risco a vida de outras pessoas.

Um garoto que aos 12 anos rouba ou mata não pode ser visto como um mero criminoso. É obviamente também uma vítima. 

Tenho uma filha de quase 12. Ela seria incapaz de cometer esses crimes com tão pouca idade. Sabem a razão? Valores, educação e condição de vida.

Mas o que esperar de uma criança criada na violência, sem escola, no convívio com álcool ou drogas, sem valores, muitas vezes, até sem comida.

Eu também me comovo com a morte do médico assassinado na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Pai de família, trabalhador. 

Mas me revolto ainda mais com a forma tendenciosa como a imprensa brasileira vem abordando a questão. Ignora o grave problema social que tem por trás da morte desse homem e trata o garoto que o matou como "mais um delinqüente que sai impune" pra seguir na campanha pela redução da maioridade penal.

E aí, ao invés de escolas e meios de ressocializar esses garotos o Estado vai colocar mais gente nas cadeias?


E o Brasil vai se transformando cada dia mais num país medieval...

domingo, 5 de abril de 2015

Não acaba feriado, por favor!

O feriado está acabando. E com ele, a presença da luz dela aqui.
Cheirei o que pude, babei o que deu, escutei empolgada, aconselhei tanto quanto possível.
Mas ela precisa voltar. Faz parte do acordo.
E dessa vez está doendo muito mais do que da primeira.
Dói porque não há mais expectativa de como será lá. Já sabemos. E não está sendo fácil, nada fácil.
Dói porque ela me pede desesperadamente para ficar.
Dói porque estou lutando contra meus mais profundos instintos maternais, que me pedem pra colocá-la debaixo das minhas asas e enfrentar todas as dificuldades práticas e a guerra com a outra parte, para seguir protegendo-a.
Ai... Eu sempre soube que não seria fácil. Mas eu nunca imaginei fosse ser tão difícil.
A pequenina que fala o tempo todo "você não vai embora. Eu não quero que você vá" e eu tendo que conter o choro e a vontade de dizer: não vai mesmo.
Peço forças a Deus. Sei que a razão é muito maior que minha a saudade.

E que venham as férias de julho.


domingo, 29 de março de 2015

Salve Leila!

Se encarnada estivesse, Leila Diniz completaria na última semana 70 anos.

Meus últimos dias foram tão corridos, que não tive tempo de fazer minhas homenagens à diva.

Porém, para minha completa alegria, fui marcada em muitas postagens de amigos que a fizeram nas redes sociais (algumas foram feitas até no meu perfil mesmo).

Estou muito longe de ter a capacidade de transformar que Leila tinha, mas não posso negar que, a despeito da nossa semelhança física, ela me serve como referência para romper a hipocrisia diária e me assumir exatamente como sou.

Que todas nós sejamos cada vez mais um pouco Leila Diniz.




segunda-feira, 16 de março de 2015

Não se esconda atrás da corrupção

Ter ódio da corrupção, qualquer cidadão de bem tem.
Mas, quando o ódio é somente de "algumas corrupções", é hora de se perceber.
Sua raiva certamente é por outro motivo.
Assuma-se!

domingo, 15 de março de 2015

Depende de Dilma. E só dela.

Reproduzo a brilhante análise do jornalista e professor Leonardo Sakamoto acerca dos protestos realizado hoje em doze cidades brasileiras e no Distrito Federal.

Reproduzo porque eu fui voluntária na campanha de reeleição de Dilma porque realmente acreditei que fosse possível essa guinada à esquerda num segundo mandato. Depois de tanto suor das forças progressistas do país, que se uniram para reelegê-la no trabalho de forminha, eu realmente acreditei que ela faria as reformas estruturais que o país precisa; romperia com esse círculo vicioso de patrocinar a mídia hegemônica; deixaria de ser tão refém do PMDB; deixaria de seguir a pauta da direita.

Eu achei...eu achei... Inocente, né?

Pena que o fato dela estar fazendo exatamente o contrário não afeta apenas minhas crenças. Está afetando toda a sua gestão. Os lobos estão para engoli-la. E nós, aqueles que a defendemos dos predadores meses atrás, estamos cada vez mais sem gás para seguir nessa batalha. Estamos porque esse Governo não dialoga conosco. Não nos atende.

O Sakamoto soube dizer isso muito bem. 

Obviamente virar as costas e jogar a tolha é muito covarde. Mas seguir nessa luta, está cada dia mais penoso.



Depende da Dilma
15/03/2015 23:25
Manifestações contra o governo Dilma tomaram ruas e praças de diversas cidades, neste domingo (15), culminando com as 210 mil pessoas ocupando boa parte da avenida Paulista, de acordo com o Datafolha, em São Paulo. Algumas estimativas, baseadas em cálculos das polícias estaduais, apontam para mais de 1,5 milhão de pessoas em todo o país.
As manifestações, que foram em sua maioria pacíficas, protestaram contra a corrupção, os desvios na Petrobras, a alta da inflação e dos combustíveis, a falta de ética na política, a culpa do PT, o desenvolvimento econômico pífio e a falta de serviços públicos de qualidade, entre outros temas. O fio condutor, contudo, era a dúvida sobre a capacidade do governo Dilma Rousseff de conduzir o país. Uma grande parte dos presentes pedia a abertura do processo de impeachment contra ela. E grupos bem menores, mas incômodos, reivindicavam intervenção (golpe) militar e reclamavam da “ameaça comunista'' – afinal, há malucos em todos os lugares.
Quem esteve na manifestação na capital paulista, por exemplo, constatou que a maioria dos presentes não pertencia a grupos sociais mais pobres e sim das classes alta e média. Isso não deslegitima a natureza ou invalida a pertinência das reivindicações dos presentes, apenas indica que, a depender do que acontecer com a economia (leia-se “desemprego''), nos próximos meses, o caldo de insatisfação pode crescer ainda mais e protestos se tornarem ainda maiores.
No começo da noite, quando os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria Geral) apresentaram, na TV, as medidas que seriam tomadas para combater a corrupção e a impunidade por um governo assustado com o tamanho dos protestos, um novo panelaço foi ouvido em bairros de várias cidades brasileiras. E parte do governo continua achando que tudo isso é insatisfação de “coxinhas''.
Já disse aqui uma série de vezes, mas nunca é demais repetir. O segundo governo Dilma Rousseff começou tal como terminou o seu primeiro: de forma muito, muito ruim.
Ela incorre em estelionato eleitoral, pois prometeu um mandato de políticas progressistas em sua campanha à reeleição e, até agora, adotou apenas uma cartilha conservadora. As medidas econômicas que seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, têm tomado poderiam muito bem ter sido adotadas por Armínio Fraga, que seria ministro de Aécio Neves, ou pela “turma do Itaú'', como sua campanha se referia ao grupo de Marina Silva.
Ao mesmo tempo, a economia para resolver os problemas de caixa que sua própria gestão ajudou a criar tem sido feita às custas de mudanças em benefícios previdenciários e sociais. Ou seja, da classe trabalhadora em detrimento aos mais ricos. Enquanto isso, taxação de grandes fortunas, de grandes heranças, de lucros e dividendos ainda é especulação.
O que Dilma Rousseff esquece é que ela não ganhou o segundo turno por conta do marqueteiro João Santana – que se participou da produção do péssimo discurso difundido em cadeia de rádio e TV, no domingo passado (8), produziu uma piada de mau gosto.
Pessoas que não são ligadas ao partido, mas defendem bandeiras de esquerda e enxergavam na continuidade do mandato uma possibilidade maior de diálogo para essas pautas, levaram, junto com organizações e movimentos sociais, a campanha ao espaço público e às redes sociais no segundo turno. Conquistaram votos como o PT fazia antigamente – antes do partido se apegar demais ao poder, apaixonar-se pelo reflexo (mentiroso) do espelho e adotar práticas que antes abominava.
Essa militância histórica que defende bandeiras ligadas à efetivação dos direitos humanos e os movimentos sociais foram, por vezes, ignorados ou nem mesmo atendidos nos últimos quatro anos.
Parlamentares representantes do agronegócio, por exemplo, tomaram litros de cafezinho com Dilma, enquanto lideranças indígenas eram atendidas apenas por alguns ministros.
Após a eleição, a grande pergunta era se o governo daria o devido valor a esses grupos, empoderando alas do próprio governo que já tentavam pautar esses temas na agenda e atendendo às reivindicações ou se continuaria levando-os em banho-maria ou ignorando-os em nome da governabilidade – uma palavra tão tosca quanto casuísmo, oportunismo, corrupção e hipocrisia?
Processos de terras indígenas mofam esperando canetadas presidenciais. A reforma agrária parou. Os trabalhadores rurais e urbanos perdem benefícios. Comunidades tradicionais são expulsas em obras que beneficiam grandes doadores de campanha. A tão sonhada reforma urbana não passou nem perto. O combate ao trabalho escravo está deixando de ser vitrine para se tornar vidraça brasileira. Direitos reprodutivos? Ah, vá! Enfim, a lista é maior que isso.
Adotar o que foi prometido em campanha não significaria acirrar os ânimos ou criar cisões. Pelo contrário, seria atuar pela efetivação de direitos fundamentais, por serviços públicos de qualidade, no combate à corrupção e contra os mimos entregues aos financiadores de campanha e uma boa reforma política – o que beneficiaria tanto os que votaram nela, como também em Aécio, em Marina, em Luciana.
Iria deixar uma minoria de ultraconservadores, que não gosta de ver direitos garantidos, bastante insatisfeita – para não dizer possessa. Mas seria uma quantidade menor de pessoas do que aquelas que ocuparam as ruas neste domingo.
Muitos imaginaram que, com o segundo turno, Dilma daria uma guinada à esquerda. E se enganaram. E se decepcionaram. E mesmo a possibilidade de um governo peemedebista não tem sido suficiente para grupos que lhe deram apoio renovarem totalmente seus votos de confiança. A bandeira da “defesa da institucionalidade'', trazida diante de palavras de ordem de impeachment, é deveras frágil para catalisar esses grupos.
Ela não está sozinha e as manifestações de sexta – significativamente menores que as de domingo – mostraram isso. Mas duvido que sejam suficientes para mantê-la no poder. Por isso, ao contrário de muitos colegas, acredito que a saída para ela ainda é à esquerda.

Vai depender de seu governo decidir se irá colocar em prática as promessas que vendeu nas eleições para seus eleitores, resgatando, com isso, parte do apoio que se perdeu – o governo deve fazer merecer novamente o apoio dos trabalhadores, que são a verdadeira força deste país. Ou se irá caminhar, com os aliados que restarem, para o buraco.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Quem acumula mágoas, coleciona lixo mental

A mágoa

À semelhança de ácido que corrói a superfície na qual se encontra, a mágoa desgasta, a pouco e pouco, as peças delicadas das engrenagens orgânicas do homem, destrambelhando-lhe os equipamentos muito delicados da organização psíquica.
A mágoa é conselheira impiedosa e artesã de males cujos efeitos são imprevisíveis.
Penetra no âmago do ser e envenena-o, impedindo-lhe o recebimento dos socorros do otimismo, da esperança e da boa vontade em relação aos fatores que o maceram.
Instalando-se, arma a sua vítima de impiedade e rancor, levando-a a atitudes desesperadas, desde que lhe satisfaça a programação vil.
Exala amargura e desconforto, expulsando as pessoas que intentam contribuir para a mudança de estado, graças às altas cargas vibratórias negativas, que exteriorizam mau humor e azedume.
Quem acumula mágoas, coleciona lixo mental.
Reage às tentativas de alojamento da mágoa nos teus sentimentos.
Não estás, no mundo, por acaso, antes, com finalidades adredemente estabelecidas que deves atender.
Acompanha a marcha do Sol, e enriquece-te de luz, não mergulhando na sombra dos ressentimentos destrutivos.
Sorri ante o infortúnio, agradecendo a oportunidade de superá-lo através dos valores éticos e educativos que já possuis, poupando-te à consumpção de que é portadora a mágoa.

*****

Pelo Espírito: JOANNA DE ÂNGELIS

Psicografia: Divaldo Pereira Franco.

Livro: Episódios Diários

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Chega de terrorismo

Não acho que o governo da Dilma é perfeito. Longe disso.
Mas acho, no mínimo, leviana e irresponsável essa tentativa da oposição e de parte da imprensa de tocar o terror. Não, o país não está no buraco.

- As pessoas seguem empregadas, ao contrário dos anos 80 e 90.

- A fome no Brasil segue controlada, ao contrário de nosso passado, quando estávamos no mapa da fome mundial.

- Ninguém deixou de sair com seus carros de casa por causa do reajuste no preço do combustível (que foi segurando pelo governo por muito tempo, diante da alta internacional do petróleo). Vale lembrar que nos anos 90, chegamos a ter 4 reajustes de combustível, num ano.

- Jovens e adultos seguem fazendo faculdade e se qualificando profissionalmente, como nunca antes na história desse país.

- A corrupção da Petrobrás está sendo investigada a fundo como nunca foi feito na empresa, mesmo com os desvios existindo nela há 20 anos.

- Os investimentos em energia estão acontecendo, como não aconteceram nos anos 90. Ou vocês esqueceram o que foi o apagão do FHC?

Eu poderia listar muitas coisas. Mas tenho mais o que fazer, do que ficar aqui fazendo o trabalho que a Secretaria de Comunicação da Presidência da República não faz.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Onde está o papai?

Das coisas que nunca consegui entender na vida são essas histórias de gente que proíbe os filhos de verem o pai ou a mãe porque o casal se separou e querem atacar os ex-cônjuges.

Como alguém pode usar uma criança como arma, como escudo?! Isso é, pra mim, tão covarde quanto dar um soco numa criança. A agressão emocional é muitas vezes irreversível.

Daí que exatamente por essa minha visão das relações entre ex e filhos, costumo deixar minhas crias livres para que sempre estejam com os pais. Quero que elas os aproveitem o máximo possível. Brinquem, briguem, perguntem, durmam juntos, saiam, façam tarefas, tudo! 

Por morar em cidade diferente dos meus dois ex-maridos, infelizmente, é difícil que essa assiduidade aconteça com minhas filhas. Por isso, nunca me fiz de rogada na hora de ligar pra eles pra contar as notas na escola, as avaliações dos pedagogos, a situação de saúde. É bem verdade que muitas vezes fui recebida com frieza nessa tentativa de proximidade; outras vezes, nem mesmo fui atendida. Mas nunca me omiti do meu papel. Vou morrer tranquila - pelo menos em relação a isso! 

Minha insistência é tanta que, no ano passado, eu pedi que a visita a uma das minhas filhas fosse fixada pela Justiça. Não aguentava mais ver a criança chorando pelo pai. E eu não tinha mais repertório pra mentir e inventar desculpas pra ela. O juiz acatou meu pedido imediatamente, óbvio! Como disse na audiência "Em 90% dos casos entram aqui casais em que os pais pedem pra ter direito de ver os filhos. O senhor está no lado inverso, está sendo chamado pra ver sua criança. Não fuja dessa responsabilidade".

É claro que pela distância a quantidade de vezes foi limitada, pois seria oneroso a visita constante. Isso, na minha cabeça, significa que o pai se planejaria para estar com essa criança nessas vezes previstas. Faria de tudo para estar com ela, recebê-la. Você também, não é?!

Só que vai chegar a segunda visita determinada pela Justiça e, pelo andar da carruagem, a minha filha não vai ver o pai, como não viu da primeira. O motivo: passagens caras.

Um mês atrás, eu identifiquei uma promoção, enviei e-mail, me dispus a comprar a passagem no meu cartão. Você recebeu resposta? Nem eu...

A terceira visita está programada para daqui a 5 meses. Espero que até lá, eu não precise inventar mais mentiras e histórias pra minha filha.

Meu coração dói cada vez que vejo os olhinhos dela murcharem com a notícia de que ela não verá o papai, que ela não verá a família, que ela não vai fazer aquelas coisas que ele liga prometendo que a levará para fazer.

Ser mãe é maravilhoso, mas também dói demais.

Enquanto isso, neste momento, há milhares de casos de homens e mulheres que gostariam de abraçar suas crianças, porém, não podem fazê-lo porque o detentor da guarda não permite, usando o pequeno como arma.

Não... o mundo nem sempre é justo.



domingo, 25 de janeiro de 2015

Sou mãe e não, dona

Quando ela me disse, cerca de quatro meses atrás, que precisava viver essa experiência, senti como um soco no estômago.

Faltou o ar, faltaram palavras. Mas se ela teve maturidade pra perceber aquela realidade aos 11 anos (fez uma bela exposição de motivos), eu também deveria ter. E do alto de sua infância, Dalila estava ali me dando mais uma lição.

Conversei com a outra parte envolvida e, pra minha felicidade, a resposta foi positiva e a ideia muito bem recebida.


O tempo foi passando e fomos, então, amadurecendo aquele plano.

Em vários momentos, ela se mostrou titubeante. Apesar de empolgada com a novidade, dizia que não conseguiria, que talvez não resistisse. Mas, apesar de toda a dor que eu sentia, eu a encorajava.

Depois da primeira conversa sobre, eu tive certeza de que aquele passo era muito importante pra ela. Era muito importante pra eles. Era muito importante pra o mundo que eles hão de viver juntos e, principalmente, pra superar algumas frestas que ficaram abertas no decorrer de 8 anos de separação.

Eis que no domingo passado, enfim, chegou o dia daquele desejo se tornar real.
O choro desde a véspera, o medo, a angústia pela distância do colo que ela sempre teve me destruíam. Mas, paradoxalmente, também me encorajavam.

Confesso que de tudo a maior dor foi ver a minha pequena Tarsila, tão alheia a tudo, sofrer com algo que não pediu pra viver.

Já no aeroporto, eu achei que não conseguiria. Mas lembrei do pai que tanto me fez falta a vida toda. Lembrei do quanto até hoje eu carrego as marcas da ausência dessa referência. No que depender de mim, minhas filhas nunca hão de carregar as mesmas dores.

Nós, mulheres, gostamos de lembrar o quanto nos sacrificamos pelos filhos: carregamos durante meses na barriga, vivemos totalmente em função deles durante os primeiros meses de vida e abrimos mão de sonhos e planos por eles. Por tudo isso, muitas de nós tendemos a nos sentir proprietárias de nossas crias. É compreensível. Não pelo senso de posse, propriamente dito. Mas porque eles passam a ser parte de nós e, nessa condição, queremos protegê-los infinitamente.

Porém, é sempre importante lembrar que não os fizemos sozinhas. Ainda que muitos pais não tenham a participação devida na vida dos filhos, não podemos privar nossos pequenos do direito à convivência com eles, quando esses homens resolvem se abrir, enfim, para recebê-los.

Confiar, muitas vezes, é difícil! E é uma responsabilidade muito maior do que a de carregar na barriga e/ou sustentar sozinha a criança. E se der errado?

Mas e se der certo? (!!!!)

Sou mãe. Não teria o direito de privar meu maior tesouro de viver a grande experiência de ter um pai por perto.

De minha parte, resta-me suportar a dor da ausência temporária dela (vai ser por um ano); tornar esse período menos sofrido para a pequena irmã tão colada nela; e orar muito para que Deus dê àquele pai a sabedoria suficiente para aproveitar essa grande experiência, esse grande resgaste.

Ela foi sabendo que me tem integralmente mesmo que a milhares de quilômetros de distância; assim como eu sei que a tenho nas minhas melhores lembranças, na minha expectativa de retorno e na minha tranquilidade de que sempre dei e darei o meu melhor por ela.

Sou mãe.

 





sábado, 3 de janeiro de 2015

E ninguém mais vai me tirar o direito de ser negra

Resolução 2015: enegrecer.

E quando alguém ousar dizer que não sou negra, vou esfregar meu cabelo na cara. Não farei o mesmo com a boca porque aí vai virar saliência.

Sou neta de negro, tenho tios e primos negros. Minha mãe, que saiu à minha avó de sangue, foi criada por outra família e eu não cresci com esse contato profundo com a família de sangue. Mas me enchi de orgulho quando soube que eu tinha sangue preto nas veias correndo com tanta proximidade, do avô.

Já fui piada no grupo onde eu dançava, na adolescência, porque eu dizia ser negra. Já fui esculachada por me assumir negra por uma liderança do movimento afro. Ela disse que eu tinha que "me enxergar". Eu tinha 20 anos e aquilo doeu em mim de um jeito que nunca soube explicar. Aquela mulher, estudiosa no assunto, disse que eu não era o que eu achava. Passei a ter vergonha de me declarar como tal. Não queria de novo passar por ridícula, patética, excêntrica aos olhos dos outros.

Mas nos últimos anos a consciência política que me toma, a indignação que cresce no peito a cada novo atentado de racismo que vejo/leio/escuto, a emoção que eu sinto a cada novo avanço social obtido e o arrepio que os batuques me causam cada vez mais me dão muita segurança pra dizer: EU SOU NEGRA.

E não venha você ou qualquer outro sujeito ousar me dizer o contrário.

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PS: dedico este post a minha amada Thiane Neves Barros, por todas as reflexões que ela me proporcionou durante as conversas em Bragança. Ratificaram meus sentimentos. Te amo!

PS 2: Não vou me autodeclarar negra apenas em uma situação: concurso público. E a razão é simples. Ainda existem irmãos que tiveram muito menos oportunidades que eu, pra quem essas cotas foram criadas.